sábado, 23 de agosto de 2014

Leitura 5ª - PLATÃO E O REINO DAS IDEIAS

PLATÃO.  (Afresco de Rafael Sanzio de Urbino, Capela Sixtina). [WIKIPÉDIA]
Platão nasceu em Atenas em 427 a.C. e ali morreu em 347 a.C. Filho de uma família da aristocracia ateniense, sofreu a influência de dois pensadores notadamente: Pitágoras de Samos (580-497 a.C.) e Sócrates (469-399 a.C.). Em 387 a.C., Platão fundou a Academia, que se constituiu, junto com a Biblioteca de Alexandria, numa das mais importantes iniciativas culturais do Mundo Antigo, tendo funcionado até 529 d.C., quando foi encerrada por ordem de Justiniano I. Convidado pelo rei Dionísio, passou um bom tempo em Siracusa, ensinando filosofia na corte.

Com a sua teoria das Idéias, Platão construiu um sistema que aproximava a filosofia pré-socrática das reflexões do seu mestre, Sócrates. Mas, em decorrência da abrangência e da profundidade que imprimiu ao seu sistema, Platão, por outro lado, formulou um pensamento com repercussões que nenhum outro filósofo conseguiu ter na História do Pensamento Ocidental. A respeito, Alfred North Whitehead (1861-1947) frisa: “Toda a filosofia ocidental não passa de notas de rodapé das páginas de Platão” [1].

Os aspectos básicos da Teoria das Idéias de Platão podem ser sintetizados nos seguintes 12 itens:

1 – É pressuposto, por Platão, um reino hipotético de essências imateriais, eternas e imutáveis que constitui o mundo das Ideias (Eidos) As Ideias são arquétipos da realidade e, de acordo com elas, são formados os objetos do mundo visível. A propósito, escreve Platão no seu diálogo Fédon, destacando que as Ideias constituem o paradigma do Ser e da Verdade: “- Então – prosseguiu Sócrates: minha esperança de chegar a conhecer os seres começava a esvair-se. Pareceu que deveria acautelar-me, a fim de não vir a ter a mesma sorte daqueles que observam e estudam um eclipse de sol. Algumas pessoas que assim fazem estragam os olhos por não tomarem a precaução de observar a imagem do sol refletida na água ou em matéria semelhante. Lembrei-me disso e receei que minha alma viesse a ficar completamente cega se eu continuasse a olhar com os olhos para os objetos e tentasse compreendê-los através de cada um de meus sentidos. Refleti que devia buscar refúgio nas idéias e procurar nelas a verdade das coisas (...). Assim, depois de haver tomado como base, em cada caso, a idéia, que é, a meu juízo, a mais sólida, tudo aquilo que lhe seja consoante eu o considero como sendo verdadeiro, quer se trate de uma causa ou de outra qualquer coisa, e aquilo que não lhe é consoante, eu o rejeito como erro” [2].

2 – As Ideias existem de forma objetiva, ou seja, independentemente do nosso pensamento. Em que pese o fato de serem independentes dele, podem por ele ser conhecidas. Em decorrência disso, a doutrina platônica foi caracterizada pelos estudiosos como um idealismo objetivo. Por exemplo: o fato de que, para além de constatarmos a existência de seres vivos como moscas, peixes ou cavalos, reconheçamos neles a característica comum de animais, isso indica que existe um arquétipo comum, “animal”, que está presente de alguma forma em todos os animais e que determina a sua maneira de ser. O fato de que o nosso entendimento possa conhecer as Idéias, (ou seja, os arquétipos subsistentes do real, que existem fora de nós), faz com que Platão seja considerado pelos estudiosos como o fundador da perspectiva realista ou transcendente, ou seja, aquela que pressupõe que o entendimento humano tem acesso à coisa em si. Esta perspectiva contrapõe-se à transcendental, que parte do pressuposto de que o nosso entendimento somente pode ter acesso aos fenômenos (àquilo que aparece), não às coisas em si; esta perspectiva foi formulada e sistematizada, no século XVIII, por Hume e Kant [3].

3 – Platão, por outro lado, postula a teoria dos dois mundos. O primeiro é o mundo visível ou sensível, no qual se desenvolve a nossa existência e que está submetido à mudança e à degradação. O segundo é constituído pelo mundo inteligível (que fundamenta a essência do primeiro). É o mundo das Idéias imutáveis. Este é um mundo do tipo que os Eleatas encontravam como próprio do Ser: é o reino da permanência e da imutabilidade. No diálogo Fédon é clara a contraposição que Platão faz desses dois mundos, sendo que o de baixo, aquele em que habitamos, é caracterizado pela precariedade, ao passo que o de cima, o verdadeiro, é um mundo de luz e de perfeição.

A respeito, o filósofo escreve, destacando a precariedade da região das sombras em que nós, mortais, vivemos, ao passo que o mundo dos arquétipos caracteriza-se pela perfeição, luminosidade, incorruptibilidade e beleza: “(...) Morando num buraco da terra, acreditamos estar na sua superfície exterior, e damos ao ar nome de céu, como se os astros de fato planassem no ar, nosso céu. O caso é bem o mesmo: por fraqueza e indolência estamos impossibilitados de subir até o ar superior. Se alguém escalasse a parte superior da terra, ou voasse com asas, esse alguém haveria de contemplar o que existe por lá, e se sua natureza fosse bastante forte para lhe permitir uma observação prolongada, verificaria que aqueles é que são o céu verdadeiro, a luz verdadeira e a terra verdadeira – assim como os peixes, que sobem do mar, vêem o que há em nossa terra! Esta parte da terra em que nos achamos, as próprias pedras e suas diferentes regiões, estão corroídas e desgastadas, assim como está desgastado e corroído pela água salgada tudo o que há no mar (....). Quanto à outra terra, constituída como é, tudo o que aí existe, existe adequadamente – árvores, flores e frutos; do mesmo modo, por sua parte, as montanhas; e as pedras aí têm, proporcionalmente, muito mais beleza quanto ao polimento, transparência e coloração: e as pedrarias de cá embaixo, as pedrarias que qualificamos de preciosas, nada mais são do que suas lascas (...). Enfim, nessa remota região, se não há nada comparável às coisas daqui, tudo é muito mais lindo e mais precioso (...)” [4]

4 – O mundo sensível está submetido ao mundo das Idéias, tanto do ponto de vista ético, quanto do ângulo ontológico. Ele só se estrutura por participação (meqxis) ou por imitação (mimsis) do mundo verdadeira e plenamente existente das Idéias. São esses processos que garantem a existência do mundo das coisas: elas existem, porque são participação e imitação das Idéias. Em relação a este ponto, escreve Platão no diálogo Parmênides, colocando em boca deste filósofo a teoria platônica da meqhxis e da mimsis: “(...) – Dize-me uma coisa: pelo que declaraste, admites a existência das idéias, das quais as coisas tiram os nomes, na medida em que delas participam, a saber: a participação da semelhança as deixa semelhantes, a da grandeza, grandes, e a da beleza e da justiça, justas e belas? – Perfeitamente, teria respondido Sócrates” [5] .

5 - Do ponto de vista da forma segundo a qual conhecemos as realidades essencial e aparente que acabam de ser mencionadas, Platão formula quatro tipos de conhecimento, sendo que dois pertencem ao mundo visível e dois são próprios do mundo que somente é acessível ao espírito. Os quatro tipos são estes:
·        Aquilo que é perceptível indiretamente (exemplo: as sombras e os reflexos dos espelhos).
·        Aquilo que é perceptível diretamente (exemplo: os objetos materiais e os seres vivos).
·        Aquilo que é conhecido pelas ciências (exemplo: a matemática, a qual, superando o suporte material – as figuras geométricas –, atinge um conhecimento intelectual como o relativo aos teoremas universais).
·        Aquilo que constitui o reino das Idéias e que é acessível à “razão pura”, que está na base de todas as representações intelectuais.

6 – Ponto central da doutrina platônica: a Idéia do Bem. Embora o Bem ocupasse um lugar de destaque no pensamento de Sócrates (como valor ético que deve inspirar ao cidadão), para Platão, no entanto, reveste-se de uma radicalidade maior: o Bem é o fim almejado e o começo de todo ser, tanto do ângulo gnosiológico, quanto do ponto de vista da ontologia. O Bem, segundo Platão, é o princípio radical de todas as Idéias e se situa acima delas. É nele que se fundam as Idéias de Ser e de Valor e, com elas, se instauram os fundamentos do mundo inteiro. O Bem cria a ordem, a medida e a unidade do mundo. A respeito, frisa O. Gignon: “Para Platão, a questão: por que o Bem? É uma pergunta que não faz sentido. Podemos indagar por aquilo que há para além do ser, mas não podemos perguntar acerca do que há a por trás do Bem” [6].

7 – O homem não pode ter acesso ao conhecimento do Ser, senão à luz do Bem. Essa luz é, para a razão humana, como o sol para os olhos. No entanto, é um sol que não somente ilumina, mas que também garante a presença dos objetos iluminados no Ser. Em A República, Platão afirma: “Podes estar seguro de que aquilo que comunica a verdade aos objetos cognoscíveis e ao espírito a faculdade de conhecer, é a Idéia do Bem (...). Os objetos do conhecimento não contêm somente a faculdade de virarem cognoscíveis, mas ainda a existência e a essência do Bem, que não é uma coisa existente, mas que a ultrapassa em elevação e força” [7]. Um pouco mais adiante, nesse mesmo texto, Platão completa assim o seu pensamento: “(...) O sol dá aos objetos visíveis não somente a faculdade de serem vistos, mas ainda lhes fornece a gênese, o crescimento e o alimento, em que pese o fato de ele não se restringir a ser essa gênese”.

8 – Sobre o pano de fundo metafísico e gnosiológico que acaba de ser exposto, Platão constrói a sua Física. O mundo da natureza é, segundo o filósofo no diálogo Timeu [8], constituído da seguinte forma: “O mundo material do devir é instaurado por um operário do mundo, um demiurgo, de forma ordenada e conforme à razão (teleologia), na medida em que ele o modela segundo o arquétipo das Idéias”. O mundo, assim, constitui uma ordem harmônica, o que em grego se traduz pelo termo Cosmos. A matéria prima na qual é concretizada a encarnação das Idéias é o receptáculo (déchoménon). 

9 – Sobre as bases metafísicas e físicas que acabam de ser mencionadas, Platão elabora a sua gnosiologia, inserindo os quatro tipos de conhecimento que foram mencionados no item 5, no contexto da teoria acerca das faculdades cognitivas da alma. Os tipos de conhecimento e as respectivas faculdades são os seguintes, a começar pelos que se ligam ao mundo material e seguindo até aqueles que o superam. O quadro a seguir sintetiza estas variáveis:


TIPOS DE CONHECIMENTO

I – Conhecimentos visíveis, através de imagens (eiknes).

II- Conhecimentos de Totalidades Visíveis (fala).

III – Conhecimentos Científicos Racionais, ou Invisíveis Inteligíveis inferiores (maqmatanoet).

IV – Contemplação Intelectiva (eidenoet).     


FACULDADES DA ALMA

I – Sensibilidade (asqesis) e Imaginação (eikasa).

II – Opinião (dxa) e Crença (pstis).

III – Razão (dinoia) equivalente da ratio, para os Latinos.

IV – Intelecção (nousqeoria), equivalente do intellectus, para os Latinos.



10 – A teoria de Platão acerca do homem insere-se no contexto de sua doutrina acerca do Conhecimento e do Ser, que foi sintetizada nos itens anteriores. Como se torna possível, aos homens, a Contemplação Intelectiva, mediante o pleno exercício da Intelecção? Esse tipo de conhecimento, o mais perfeito ao qual o homem pode aspirar, não procede dos níveis inferiores de apreensão da realidade (a partir do mundo sensível). Procede tal conhecimento intelectivo, no entanto, de uma reminiscência da alma da sua passagem ou da sua proveniência do Mundo Inteligível. Todo conhecimento intelectivo é, portanto, reminiscência ou anámnese. A alma do homem, segundo Platão, contemplou as Idéias numa existência anterior, mas as esqueceu depois da sua entrada no corpo. Nele, a alma vive encadeada.

alegoria da caverna, que Platão apresenta na sua obra A República [9], ilustra essa situação da alma presa no corpo. Os homens são semelhantes a prisioneiros encadeados no fundo da caverna, não podendo ver nada do mundo real. Aquilo que eles tomam como a realidade são sombras de objetos fabricados cujas silhuetas uma fogueira projeta sobre a parede da caverna. A anámnese é representada mediante a visita que um dos prisioneiros faz ao mundo exterior, onde contempla os objetos naturais e o sol, tal como eles são na realidade. As sombras e os objetos na caverna correspondem à experiência sensível, ao mundo situado fora do inteligível. A força que conduz o homem em direção à região do Ser e do Bem é Eros. Ele acorda, em nós, o desejo de nos levantarmos até o conhecimento das idéias. No diálogo Banquete, Platão caracteriza Eros como a busca filosófica da beleza e do conhecimento. Ele estabelece, para os humanos, a ponte entre o mundo sensível e o inteligível. Platão denomina de dialética o método que conduz à descoberta do mundo das Idéias, sob o impulso de Eros. A dialética ou a busca filosófica da Beleza e do Conhecimento, ocorre na relação do eu com os outros homens, na qual se concretiza o ato pedagógico (épimeléia) de procurar a verdade que diz relação aos humanos, superando o conhecimento do mundo físico.

Platão, certamente, herdou do seu mestre Pitágoras de Samos (580-497 a.C.), a concepção bipolar do homem, como cindido entre dois princípios irreconciliáveis, corpo (soma) e alma (psyché). É herança pitagórica, outrossim, a concepção segundo a qual a alma deve controlar o corpo. A alma, substância homogênea que se compara às Idéias imutáveis e eternas, justamente por essa sua característica elevada (que a coloca por cima da matéria), está habilitada para conhecer o mundo dos Arquétipos e é capaz de se movimentar por si própria. Platão afirma que a vida é característica essencial da alma, não podendo ela, em conseqüência, admitir a morte.

A alma, por sua vez, possui três partes: a razão (faculdade que é portadora da fagulha divina que os homens levam consigo), a coragem (a parte nobre) e os apetites (a parte inferior). A razão é simbolizada por Platão como o cocheiro que conduz o carro, sendo que a coragem é o cavalo que obedece e os apetites são simbolizados pelo cavalo rebelde. Três virtudes emergem, segundo o filósofo, dessas partes da alma: a sabedoria (da razão), a perseverança (da coragem) e a moderação (dos apetites controlados pela razão). No entanto, há uma virtude que, presente na alma, permite ao homem estabelecer um equilíbrio harmonioso entre as três virtudes mencionadas: ela é a justiça (dikaiosunh).

A partir da estrutura racional da esfera das Idéias, Platão deduz o postulado do poder soberano da razão, mas também o da sua concretização nas denominadas virtudes cardeais. Mas há, paralelamente, no homem, uma cisão que o afeta e que parte da desvalorização que o pensador atribui ao corpo, como princípio opaco que se contrapõe à luz de que é portadora a alma. Para o homem poder se guiar ao longo da vida precisa ir superando a materialidade do corpo, no exercício assíduo da razão e das virtudes cardeais. O homem deve almejar por uma recompensa após a morte. O pensador imagina que a alma poderá, livre das amarras da corporeidade, participar do reino do espírito puro. A virtude, em que pese o fato dessa visão teleológica que aponta para o mundo das Idéias e do Sumo Bem, possui também uma justificativa na esfera da vida terrena do homem: ela constitui, para Platão, a melhor maneira de viver neste mundo.

11 – A Política, para Platão, espelha a concepção antropológica que acaba de ser resumida. O Estado repete a estrutura do indivíduo. Platão deixa claro que entramos na ordem política, não por causa das nossas virtudes, mas em decorrência das carências que nos afetam. O Estado, para o filósofo, divide-se em três ordens[10]a dominante, integrada pelos filósofos ou sábios (representantes da razão e os únicos que são aptos para buscar a maneira justa segundo a qual os cidadãos devem pautar a sua vida); em segundo lugar vem a ordem dos guerreiros (que são aqueles que constituem a parte sensível da alma, ou que representam a coragem) e a ordem dos produtores, que corresponde à parte sensível da alma (artesãos, comerciantes, camponeses que devem garantir os bens materiais de que a sociedade carece).

A educação deve ser conduzida rigorosamente pela Cidade-Estado, a fim de garantir o máximo de eficiência e racionalidade na sua defesa e na gestão dos assuntos públicos. A educação para a cidadania (paidéia) deve abarcar a vida toda dos cidadãos e contempla as seguintes etapas: educação elementar pela música, a poética e a ginástica (até os 20 anos); educação científica, que abarca: matemáticas, astronomia e ciência da harmonia (deve durar 10 anos); iniciação à dialética ou filosofia (com duração de 5 anos); educação política (que consiste na prática da gestão do Estado e que deve durar 15 anos). Após todas essas etapas, o cidadão poderia escolher entre o acesso ao poder do Estado ou a vida contemplativa.

O filósofo cultuava um modelo de gestão total do Estado sobre os cidadãos, segundo o qual o Rei Filósofo e os seus colaboradores deveriam prever todos os aspectos da vida privada (concernentes às relações sexuais, à geração dos filhos, à religião e à educação de jovens e crianças). A idéia seria garantir a seleção dos melhores para a condução e a administração do Estado, bem como para a sua defesa. A célula mater da sociedade não seria, pois, a família, nem o clã, e passaria a ser o aparelho administrativo rigorosamente controlado pelo Rei-Filósofo. A constituição do Estado proposto por Platão seria, portanto, uma aristocracia, ou governo dos melhores. Na parte final da sua obra política (que é constituída pela obra intitulada As Leis, escrita na velhice), o pensador insistia menos no Rei-Filósofo e enfatizava o papel das leis (corretamente entendidas pelos cidadãos), na estruturação do regime ideal.

A Filosofia Ocidental, ao longo da sua história, fez eco a esses ensinamentos do mestre ateniense, nos vários modelos de poder racional total que foram desenvolvidos, por exemplo, na Renascença italiana, com a obra de Tomás Campanella (1568-1639) intitulada: A cidade do Sol e com O Príncipe, de Nicolau Maquiavel (1469-1527). Na modernidade, ecoam os ensinamentos políticos do platonismo no Leviatã, de Thomas Hobbes (1588-1679) e se projetam até a contemporaneidade nos vários autores que defendem o poder total nas multifacetadas versões de despotismo hidráulico, apresentadas por Karl Wittfogel (1896-1988) na sua clássica obra: Despotismo Oriental – Ensaio interpretativo do Poder Total [11]. No seio da meditação brasileira, duas abordagens dos modelos de poder total são importantes: a desenvolvida por Roque Spencer Maciel de Barros (1927-1999) no seu clássico estudo intitulado: O fenômeno totalitário [12] e a recente obra de Antônio Paim (nasc. 1927), Marxismo e descendência [13].

12 – Caminho pedagógico para a dialética: o diálogo. É através dele que os homens encontram os conceitos que representam as Idéias. Estas vão se revelando aos homens dialeticamente, sem recurso à representação das coisas do mundo sensível. O diálogo entre os humanos possibilita a análise e a síntese dos conceitos, bem como a formulação de hipóteses que são examinadas e, logo, aceitas ou rejeitadas. Os personagens presentes nos diálogos platônicos defendem, deliberadamente, posições opostas, com o objetivo de examinar as teses, à luz das suas antíteses. Dessa oposição emerge a verdade.

 Platão consolidou, na tradição filosófica ocidental, o gênero diálogo, que passou a formar parte das várias modalidades de expressão literária do pensamento filosófico. Inúmeros autores, das mais variadas épocas, passaram a se inspirar no mestre ateniense, como por exemplo, Leão Hebreu (Iehuda Abravanel, 1465-1534), o pensador português do século XVI que escreveu os conhecidos Diálogos de Amor [14]. Outro autor que cultivou o diálogo filosófico para exprimir o seu pensamento foi Leibniz (1646-1716), na sua obra fundamental intitulada: Novo tratado sobre o entendimento humano [15]. Na filosofia brasileira, são lembrados por muitos os diálogos filosóficos de Vicente Ferreira da Silva [16] (1916-1963), integrante da denominada Escola de São Paulo.

Sócrates é o personagem principal dos diálogos platônicos (uma evidente homenagem de Platão ao seu mestre). A interpretação dos diálogos insere-se numa dinâmica dialética do pensamento, como foi frisado pouco antes. A estrutura dialogal da sua obra possibilita ao pensador se esconder por trás da figura de algum dos interlocutores. A temática tratada nos 25 Diálogos considerados autênticos é variada: a questão da virtude (que é o ponto central dos diálogos de juventude), passando pela problemática do conhecimento (Menon Teeteto, por exemplo), a política (A República, As Leis), bem como a filosofia da natureza (Timeu).

A forma literária dos diálogos platônicos, certamente, é um instrumento em mãos do pensador para realizar a ponte entre mito lógos. No pensamento do filósofo, a estrutura da realidade alicerçada no Sumo Bem e nos Arquétipos nele subsistentes, ocupa o lugar da antiga teomaquia (ou combate entre os deuses, que teria dado origem ao Cosmo). O diálogo equivale, no pensamento platônico, ao ritona estrutura mítica. È no diálogo que acontece a magia da revelação da verdade para os homens que dele participam.




[1] Cit. por Kunzman – Burkard – Wiedmann, in: Atlas de la Philosophie, trad. francesa de Desanti, Droit et alii, Paris:  Librairie Genérale Française, 1993, p. 39
[2] PLATÃO, Diálogos. (Tradução e notas de J. Paleikat e J. Cruz Costa; seleção de textos de J. A. Motta Peçanha). 4ª edição. São Paulo: Nova Cultural, 1987, p. 106.
[3] Cf. PAIM, Antônio. Roteiro para o estudo da Crítica da Razão Pura de Immanuel Kant. Juiz de Fora: UFJF - Curso de Mestrado em Filosofia, 1984, p. 2, (mimeo.).
[4] PLATÃO. Diálogos. Ob. cit., p.  118-119.
[5] PLATÃO. Diálogos – Volume VIII Parmênides – Filebo. (Tradução de Carlos Alberto Nunes). Belém: Universidade Federal do Pará, 1974, p. 26-27. Coleção Amazônica – Série Farias Brito.
[6] Cit. por Kunzman – Burkard – Wiedmann. Atlas de la philosophie, ob. cit., p. 39.
[7] PLATÃO. L´État ou la République. (Tradução francesa de A. Bastien). Paris: Garnier, s/d, p. 249-250.
[8] Cit. por Kunzman – Burkard – Wiedmann. Atlas de la philosophie, ob. cit., p. 39.
[9] PLATÃO. L´État ou la République. (Tradução francesa de A. Bastien). Paris: Garnier, s/d, p. 271-275.
[10] PLATÃO. L´État ou la République. (Tradução francesa de A. Bastien). Paris: Garnier, s/d, p. 86 seg.
[11] Cf. WITTFOGEL, Karl. Le Despotisme Oriental. (Tradução francesa de Micheline Pouteau). Paris: Minuit, 1977.
[12] BARROS, Roque Spencer Maciel de. O fenômeno totalitário. Belo Horizonte: Itatiaia, 1990.
[13] PAIM, Antônio. Marxismo e descendência. Campinas: Vide Editorial, 2009.
[14] HEBREU, Leão. Diálogos de Amor. (Texto fixado, anotado e traduzido por Giacinto Manupella). Volume II – Versão Portuguesa – Bibliografia. Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1983. Devido ao fato de o autor ter sido expulso pela Inquisição portuguesa para Espanha (onde a Inquisição também o perseguiu, tendo seqüestrado o seu filho), Leão Hebreu terminou escrevendo a sua obra na Itália, sendo a primeira versão da mesma composta em italiano.
[15] LEIBNIZ, Gottlibeb Wilhelm. Nuevo tratado sobre el entendimiento humano. (Tradução ao espanhol e prólogo de Eduardo Ovejero y Maury). Buenos Aires: Aguilar, 1980, 2 vol.
[16] Cf. SILVA, Vicente Ferreira da. Obras completas. (organização e Prefácio de Miguel Reale). São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia, 1964, 2 vol.

Leitura 4ª - OS SOFISTAS E A REAÇÃO SOCRÁTICA

Sócrates. Busto no Museu do Louvre [WIKIPÉDIA].
A SOFÍSTICA

O período clássico da história da Antiga Grécia estende-se dos séculos VI a V a. C. Correspondeu à época dos denominados Sofistas, bem como dos seus críticos Sócrates, Platão e Aristóteles. Foi o período do auge e do início da decadência de Atenas, sendo que a meditação dos sofistas se deu na primeira etapa e a dos clássicos propriamente ditos (Sócrates, Platão e Aristóteles) acompanha a segunda. A meditação destes últimos constitui, certamente, uma reação contra essa perda de vitalidade da civilização ateniense.

No centro do período está a preocupação com a Cidade, a Polis. Atenas virou o núcleo da reflexão. Os Pré-socráticos tinham aberto a sua meditação ao Cosmo e ao papel desempenhado pelo Homem nele. Neste novo período, Atenas ocupa o lugar central. Como organizar a cidade? Como participar da sua vida econômica, política e cultural? Essas são as novas preocupações, de que se desincumbiram, em primeiro lugar, os Sofistas.

Entre os estes, destacam-se: Protágoras de Abdera (490 a. C.- 415 a. C), Híppias de Elis (460 a. C.-400 a. C.), Górgias de Leontinos (485 a. C. – 380 a. C.), Isócrates de Atenas (436 a. C-338 a. C.), etc. Uma frase de Protágoras sintetiza o espírito que marcou a reflexão dos Sofistas: "O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são e das coisas que não são, enquanto não são". Tudo é relativo às ambições humanas e à participação do Homem na Polis. A Retórica será a nova ciência que abre caminhos para a participação nos negócios atenienses. A elite social busca desaforadamente preparar os seus jovens para a nova “profissão”, que consiste em, mediante a argumentação clara e a palavra rápida, convencer os concidadãos de que o candidato é capaz de “falar em público” para defender os interesses de quem o elege.

Os sofistas eram, em geral, estrangeiros que tentavam a sorte em Atenas. As aulas de retórica eram bem pagas. E aqueles que tivessem sucesso encontrariam uma fonte certa de enriquecimento e de participação na vida da cidade. A Sofística era a chave de ouro para quem vinha de fora com a finalidade de tentar o sucesso rápido. A filosofia era utilizada como fundamento prático para a arte da retórica. Não interessava muito o aprofundamento conceitual nos problemas. A preocupação consistia, basicamente, em vender a arte da retórica, a fim de que o formando pudesse se sair bem nas discussões na praça pública ou “ágora”. Os sofistas estavam ali onde fossem chamados. Daí a sua característica de professores ambulantes de filosofia. Uma filosofia prática, simples, convincente. A antessala do sucesso político. Tinham os sofistas, portanto, muito do que hoje encontramos nos marqueteiros: sentido da oportunidade, esperteza, pouco compromisso com o aprofundamento das questões e com a verdade. Daí a crítica que os clássicos, Sócrates, Platão e Aristóteles à testa, desfecharam contra a Sofística.

Os escritos dos Sofistas se perderam no tempo. Chegaram até nós fragmentos ou referências feitas principalmente por Platão, que foi o seu principal crítico. A essência dessa rejeição podia-se sintetizar assim: a vida da Polis é a culminância da vida do Homem, aquilo que lhe garante o pleno desenvolvimento espiritual e moral. Portanto, na formação dos jovens para a participação na vida ateniense, não pode ocupar o lugar alguém inescrupuloso que busca apenas o sucesso material. Platão considerava que a educação da juventude para a política deveria ser dever do Estado. Era necessário acabar, portanto, com esse festival de superficialidades veiculado pelos sofistas. Atenas decaiu, pensava Platão, porque as lideranças entregaram a nobre função de formar a juventude a estrangeiros inescrupulosos. Para reerguer a Polis o primeiro ponto a ser atacado deveria ser mudar os parâmetros da educação da juventude.

Platão considerava que os sofistas não eram filósofos. Apesar disso, eles deixaram importantes contribuições à filosofia. Foram os primeiros a fazer uma distinção entre a physis (ordem natural) e a nomos (ordem humana). Afirmavam não haver uma verdade absoluta. Ensinavam que o que existia eram simples opiniões. Protágoras, com o seu princípio de que “o homem é a medida de todas as coisas”, defendia que cada homem seria a medida e o fundamento da sua própria verdade.

Os sofistas eram considerados como praticantes da polimatia, ou seja, tratavam de qualquer assunto. Falavam – como diriam os Escolásticos mais tarde, “de omni re scibili et de quibusdam aliis” [“acerca de tudo quanto pode ser sabido e de algumas outras coisas”]. Organizaram os seus ensinamentos num currículo integrado pelas seguintes disciplinas: gramática, retórica, dialética, aritmética, geometria, astronomia e música, deitando, assim, as bases para o sistema de formação da enkiklios paideia ou cultura humanística e enciclopédica que antecipava, na Antiguidade, o que hoje conhecemos como Ensino Básico e Humanístico.

Para os sofistas, a virtude poderia ser ensinada através dos seus longos discursos. Esta consistia, fundamentalmente, na arte da argumentação para convencer os outros e, assim, galgar degraus na vida da Polis (ou na Política). O ensino consistia numa profissão que deveria ser remunerada. Protágoras foi o primeiro sofista a aceitar pagamento pelos seus ensinamentos.

Os sofistas discutiram a sabedoria recebida dos antigos, bem como a heroicidade da civilização ateniense, alicerçada no espírito de luta para defender a Polis. As práticas culturais não eram mais do que convenções elaboradas entre cidadãos. Não haveria, portanto, na estrutura legislativa da Polis ateniense nada de sagrado. Toda a moralidade deveria ser referida a esse contexto de construção de consensos entre os cidadãos. O papel da Nomos (Lei) consistia em fixar momentos dessa convenção, que poderia ir se ajustando às necessidades do momento. Os pensadores clássicos, que surgiram da reação das elites atenienses contra esta visão descaradamente prática da existência, arrolaram os Sofistas como superficiais, corruptos e imorais.

Além do conhecido princípio de Protágoras de que "o homem é a medida de todas as coisas", surgiu dos ensinamentos sofistas a teoria do contra-argumento: contra qualquer argumento podia se opor outro argumento que tivesse maior verossimilhança perante o público. Os sofistas foram considerados, assim, os precursores da prática da advocacia. Eles cobravam dos seus clientes pela efetividade da sua argumentação em favor dos interesses dos seus clientes. Eram, destarte, considerados por muitos, na sua época, como guardiões da democracia, ao defenderem a variedade de pontos de vista, levando sempre em consideração os interesses dos clientes. Sofística era originalmente o termo dado às técnicas ensinadas pelos sofistas. Com a crítica deflagrada pelos clássicos, este termo terminou perdendo a sua significação original e passou a ser considerado como uma espécie de defesa da mentira.

O principal ensinamento sofístico consiste, pois, numa visão relativa de mundo, a partir da defesa dos interesses individuais. Tal ensinamento entrava em choque direto com a hipótese dos pensadores metafísicos de que há um ser que fundamenta tudo e que é inamovível. A metafísica não era uma das preocupações sofísticas. Apenas interessava a retórica.

A Sofística defende o relativismo prático, destruidor da moral antiga da Polis, alicerçada no sentimento de honra e no valor de quem luta pela defesa da Cidade-estado. Os Sofistas eram chegados, em teoria do conhecimento, ao empirismo, e, do ângulo ético, se inclinavam pelo hedonismo e o utilitarismo. O único bem desejável é o prazer. A única regra de conduta é o interesse particular. Górgias declara plena indiferença em face de qualquer moralismo. O único que vale a pena é a arte de vencer os adversários. Que a causa defendida seja justa ou não, isso é uma questão secundária. A moral, portanto, entendida como norma universal de conduta, é um obstáculo para a vida feliz e prática. Desta maneira, os sofistas estabelecem uma oposição especial entre natureza e lei. Consideram ser a lei um fruto arbitrário, sedimentado pela pura convenção. A natureza humana não é a racional, mas a natureza humana sensível, animal, instintiva.

A realização da humanidade perfeita consiste, portanto, única e exclusivamente no engrandecimento ilimitado da própria personalidade, no prazer e no domínio violento dos outros. Ora, tal domínio é necessário para possuir e gozar os bens terrenos, levando em consideração que estes são limitados e buscados freneticamente pelos demais homens. A verdadeira justiça, conforme à natureza material do homem, exige que o forte domine o fraco em seu proveito.

Quanto ao direito e à religião, a posição da Sofística é simplificadora, também, como na gnosiologia e na moral. A sofística desenvolveu uma forte crítica contra o direito positivo, em nome do direito natural. Mas este direito natural (bem como a moral natural) não seria o direito fundado sobre a natureza racional do homem, e sim sobre a sua natureza animal e instintiva. O direito natural é, portanto, o direito do mais poderoso, pois numa sociedade em que estão em jogo forças brutas, a força constitui o único elemento de ordem.

SÓCRATES (469-399 a. C.) E O DIÁLOGO COMO MÉTODO PARA A REFLEXÃO FILOSÓFICA

Sócrates serviu como hoplita (infante) no exército de Atenas. De temperamento religioso, foi avisado, pelo seu concidadão Querofonte, de que o Oráculo de Delfos o tinha declarado “o mais sábio dos atenienses”. Consciente de que os deuses o chamaram para uma missão de moralização de Atenas, dedicou-se a levar os seus concidadãos a que se conhecessem a si mesmos (seguindo a máxima délfica), mediante o exame das concepções que outros julgavam possuir a respeito de determinada virtude. Sócrates adotou o diálogo como forma de reflexão. Depois de duas ou três tentativas de dialogar com ele para responder aos seus questionamentos, o interlocutor se calava, derrotado. (Situa-se, aqui, o caráter aporético ou problemático do diálogo socrático). O interlocutor era conduzido à inevitável conclusão: “só sei que nada sei”, a partir da qual poderia começar a ser escutado “o demônio interior” (a voz da razão dentro de si). Nisso consiste a maiêutica (ou arte de dar à luz os conceitos), que é a disponibilidade para a sabedoria, que conduz à catarse, ou purificação das ilusões egoístas. Alicerçado nesse seu método de interiorização à procura da verdade, Sócrates partiu para uma crítica radical à Sofística, a qual consistia, segundo o pensador, no domínio da doxa (ou da opinião).

O filósofo, conseqüentemente, afrontou os poderosos da cidade e teve de enfrentar a fúria deles. Condenado à morte pelo Areópago de Atenas, ofereceu a sua vida como testemunho da validade da doutrina que ensinava. Segundo o ensinamento socrático, para bem agir não bastava alguém se pautar pelo que estava estabelecido pelo costume ou as leis da Polis, sem levar em consideração a voz da consciência. Sócrates, como Jesus, aperfeiçoou o conceito da moral, exigindo uma raiz de autenticidade no comportamento humano, que deveria se basear em convicções enraizadas no fundo da alma. O pensador grego tornou-se, assim, o precursor do modelo da ética da autenticidade, que seria sistematizado séculos mais tarde, por Kant, na sua Fundamentação da metafísica dos costumes.

Platão (427-347) realizou a sistematização da tradição socrática na Academia, fundada por ele em 387 a.C. e que funcionou durante aproximadamente 800 anos até 529 d.C., (quando foi encerrada por ordem do Imperador Justiniano I). Platão conservou a tradição do seu mestre nos Diálogos que levam o nome de “aporéticos”. O sentido geral do pensamento platônico é de superação das coisas fenomenais, apreendidas pelos sentidos (onta gignoména). É preciso ir dessas coisas até o ser verdadeiro, a Idéia (eidos). O domínio das Idéias é apresentado como aquilo que é estável, permanente. O domínio das coisas sensíveis, por sua vez, é apresentado como o reino do movimento. Mas, se há essa dualidade de domínios, existe, portanto, o problema da mediação entre ambas as instâncias.

Platão estendeu uma ponte entre esses dois pontos, que se apresentavam contrários no pensamento pré-socrático. De um lado, o Ser é imobilidade (o representante desta versão foi, sem dúvida, Parmênides de Eléia, embora o seu pensamento levasse em consideração, também, a finitude e o movimento). O segundo ponto, contrário ao anterior, pressupõe que o ser é mobilidade (sendo o representante desta versão Heráclito de Éfeso, embora ele reconhecesse, por sua vez, o pano de fundo de permanência em relação ao qual ocorre o movimento).

Numa primeira fase do pensamento platônico, o ser da Idéia é apresentado como permanência e imutabilidade. Mas, na segunda fase do seu pensamento, Platão coloca, cada vez mais claramente, o problema da relação das Idéias com as coisas. Paralelamente, é colocada a questão da relação das Idéias com o Sumo Bem. Destarte, Platão introduz o tema do movimento no reino das Idéias. Evidentemente, não se trata do mesmo movimento das coisas. O movimento das Idéias diz relação à ordenação do Cosmo. É o movimento da manifestação do Ser. Veremos este assunto, ampliado, na próxima leitura que versa sobre Platão e a sua obra.

Questões para discutir.  (Escolha a resposta válida).

1 – O principal ensinamento sofístico consistia numa visão relativa do mundo, a partir da defesa dos interesses individuais. Tal ensinamento entrava em choque com:
  • A Mitologia Grega, alicerçada na tríade: Caos (Origem de tudo), Uranos (Céu) e Gaia (Terra).
  • A hipótese dos pensadores metafísicos de que há um Ser que fundamenta tudo e que é imóvel.
  • A afirmação de Protágoras de Abdera de que “O homem é a medida de todas as coisas”.
2 – Sócrates, de temperamento religioso, foi avisado pelo seu concidadão Querofonte de que o Oráculo de Delfos o tinha declarado “o mais sábio dos atenienses”. Consciente de que os deuses o tinham chamado para uma missão de moralização de Atenas, dedicou-se a:
  • Pregar o Cristianismo aos seus concidadãos, o que motivou a sua condenação à morte pelo Areópago.
  • Ensinar os princípios da Retórica, alicerçado no princípio de Protágoras de Abdera de que “o homem é a medida de todas as coisas”.
  • Levar os seus concidadãos a que se conhecessem a si mesmos, mediante o exame das concepções que outros julgavam possuir a respeito de determinada virtude, a fim de chegar à seguinte conclusão: “Só sei que nada sei”.
3 – Platão realizou a sistematização da tradição socrática na Academia, fundada por ele em 387 a. C. O sentido geral do pensamento platônico é o seguinte:

  • Crítica às autoridades atenienses pela morte de Sócrates.
  • Superação das coisas fenomenais (ou realidades aparentes apreendidas pelos sentidos), a fim de ir até o ser verdadeiro (a Ideia).
  • Volta aos mitos gregos que explicavam a origem do Cosmo e das instituições atenienses.

Leitura 3ª - A PRIMEIRA CONCEITUAÇÃO SOBRE A NATUREZA, FEITA PELOS PRÉ-SOCRÁTICOS

Grécia Antiga no período Pré-socrático. [Imagem: WIKIPÉDIA].
Introdução - Os Pre-socráticos foram os primeiros filósofos do Ocidente.  O objeto da sua reflexão foi o Cosmo, de longa data observado pela Humanidade, já desde a sua pré-história, há 100 mil anos atrás. Aristóteles denominou-os de “físicos”, pela importância que conferiam ao estudo do Universo e da Natureza. Mas a meditação deles também se projetou sobre o ser humano, abarcando-o como “habitante da casa cósmica”, a Terra. Ao observar os fenômenos naturais, deitaram as bases do método científico que, séculos depois, seria consagrado no Ocidente. Observaram os fatos, formularam hipóteses, desenvolveram discussões e análises acuradas para verifica-las, terminaram formulando “leis”. Utilizaram pioneiramente os números, não apenas para identificar a plenitude das perfeições divinas, mas também para calcular e expressar achados. E, em toda essa caminhada rumo ao pensamento racional, mantiveram uma ponte com o pensamento mítico.

Os Pre-socráticos viveram no Mediterrâneo Oriental, ocupando as ilhas que povoam essa região, bem como as cidades costeiras hoje pertencentes à Turquia. Viveram e ensinaram, também, nas Ilhas do Mar Egeu, bem como no território hoje ocupado pela Grécia, pela Sicília e pela Itália continental, no sul, na região do Golfo de Tarento e no nordeste, na área banhada pelo Mar Adriático. Toda essa região era conhecida como a “Magna Grécia”.

Do ângulo sócio-político, a característica fundamental dessa ampla área onde viveram os Pre-socráticos, ao longo dos séculos VI e V a. C., consistiu na ausência de um governo central forte. Prevaleciam, nessa época, as cidades-estados. E a atividade comercial era a principal ocupação econômica. O ambiente de liberdade era a tônica das cidades dessa parte do Mundo Antigo. Liberdade de movimentação, liberdade de trocas, liberdade de crenças, liberdade de pensamento. Os Pre-socráticos, com as suas variadas teorias acerca do Cosmo, das incertezas e esperanças do Homem, da constituição da Natureza e da cidade-estado, revelam esse ambiente de liberdade de pensamento.

Justamente essa ausência de controles sobre o pensamento, foi o que possibilitou a diversidade e o ambiente crítico. Tudo era submetido ao crivo da razão e das conveniências dos indivíduos. É claro que, nas cidades-estados da época, volta e meia apareciam tiranos que pretendiam colocar tudo sob o seu domínio. Mas o ambiente geral de liberdade comercial tornou possível que se fizessem críticas a tais desmandos e que os pensadores pudessem emigrar para cidades onde havia um clima de maior tolerância. Isso explica a transumância desses filósofos, que ora moravam nas cidades da costa oriental do Mediterrâneo, ora se deslocavam para a Grécia continental, para as Ilhas Cyclades, ou para a longínqua Sicília e as costas do Sul e do nordeste da Itália.

Antes de abordar o pensamento dos Pre-socráticos, lembremos alguns dados da história da Grécia Antiga, bem como da democracia ateniense, nessa remota época dos séculos VI e V a. C. A seguir, será analisado o pensamento de Tales de Mileto, Pitágoras de Samos, Heráclito de Éfeso e Parmênides de Eléia.



1 - ALGUMAS DATAS E DADOS MARCANTES DA HISTÓRIA DA GRÉCIA ANTIGA

  • 1.650-1.600 a. C. Ocorreu, nesse período, a primeira erupção vulcânica que destruiu a Ilha de Tera (a 75 quilômetros a sudoeste da Grécia continental, no extremo sul do arquipélago das Ilhas Cyclades, com uma área total de 76 quilômetros quadrados).
  • 1.400-1.150 a. C. Ocorreu, nesse período, a segunda explosão vulcânica que arrasou o que tinha restado da Ilha de Tera. Esse evento telúrico deu ensejo ao “Mito da Atlântida” registrado por Platão (nos seus diálogos Timeu e Crítias).
  • 776 a. C. Começaram os Jogos Olímpicos.
  • 620-605 a. C. Tirania de Pisístrato e dos seus filhos Hípias e Hiparco, em Atenas.
  • 600 a. C. Reformas de Sólon.
  • 600 a. C. – 500 a. C. Período dos “Filósofos pré-socráticos”, originários do Mediterrâneo Oriental e das Ilhas Gregas.
  • 500 a. C. Revolução e Reformas de Clístenes, em Atenas. A cidade, para se proteger dos invasores estrangeiros, muda o perfil agrícola e pastoril, centrado na autoridade dos anciões, e passa a se constituir como sociedade militar chefiada pelos guerreiros e aberta ao comércio.
  • 500-400 a. C. “Idade de Ouro” de Atenas, no denominado “Século de Péricles”.
  • 461-430 a. C. Período de Péricles.
  • 430 a. C. Peste de Atenas e início da decadência da cidade-estado. Observemos que os grandes pensadores de Atenas aparecem quando a cidade-estado começa a decair:
  • 470 a. C.-399 a. C. Sócrates.
  • 428 a. C.-347 a. C. Platão.
  • 384 a. C.-324 a. C. Aristóteles.
 2 - ALGUNS DADOS SOBRE A DEMOCRACIA ATENIENSE (ANOS 500-400 a. C.)

  • Habitantes de Atenas: 400.000.
  • Cidadãos eleitores: 40.000.
  • Assembleia: 5.000 membros. Provinham das 10 tribos em que se dividia toda a população existente na região de Atenas. Era um poder que hoje chamaríamos Constitucional, porque definia as bases fundamentais do convívio político.
  • Conselho: 500 membros. Correspondia, servatis servandis, ao nosso Legislativo atual. Em 594 a. C. Sólon criou o Conselho com 400 membros, que passaram a 500 a partir das reformas de Clístenes em 507 a. C. A principal inovação consistiu em estabelecer como principio básico a «isonomia» ou igualdade de todos los cidadãos de Atenas perante a lei. Dessa forma, foi abolida a forma aristocrática de governo. O Conselho, denominado de Bulé, era responsável pelas funções administrativas e pela preparação das leis e a participação nele não se restringia à aristocracia, sendo assim um órgão popular de governo. Cada tribo, das dez existentes, indicava 50 membros para o Conselho. Clístenes estendeu os direitos de participação política a todos os homens livres nascidos em Atenas: os cidadãos. Desse modo, consolidava-se a democracia ateniense. Esta, no entanto, era restrita. Dos 400 mil habitantes que Atenas tinha no século V a. C., somente 10% possuíam direitos civis e políticos. Ficavam excluídos da vida pública, entre outros, os estrangeiros residentes em Atenas (os chamados “metecos”), bem como os escravos e as mulheres, ou seja, a maior parte da população.
  • Areópago (composto por Arcontes aposentados, pertencentes à aristocracia): 31 membros. Era um Conselho que exercia as funções de Tribunal Supremo e que cuidava, também, de assuntos como educação e ciência.
  • Arcontado: 9 membros pertencentes à aristocracia e que se denominavam Arcontes. Este órgão exercia as funções de governo. Inicialmente os seus membros recebiam um mandato de 10 anos, tempo que foi sendo reduzido até chegar a um ano. O Arcontado era presidido pelo Arconte-rei, encarregado das funções religiosas.
  • Domínio da Pérsia sobre a Ásia Menor: ocorre entre 550-500 a. C. e condiciona a Revolução de Clístenes, em Atenas (507 a. C.). Nesse período ocorre a transcrição da Ilíada e da Odisseia, atribuídas a Homero. Essas obras constituem o novo mito guerreiro, sobre o qual se alicerçam as reformas de Clístenes.
  • Invasões dos Persas à Grécia: ocorreram três, entre 490 e 449 a. C.
  • Duas raízes culturais remotas de Atenas: Civilização Minoica (que floresceu em Creta entre 3.000 e 1.400 a. C.), de caráter humanístico, e Civilização Micênica (que floresceu em Micenas, na Grécia continental, na região do Peloponeso, entre 1.600 e 1050 a. C.), de caráter militar, dando ensejo à lenda de Agamêmnon.
  • Decadência da Civilização Minoica e progressivo avanço da Civilização Micênica, a partir da lenta decadência da primeira, ao ensejo dos eventos telúricos que acompanharam a desaparição da Ilha de Tera, no Mediterrâneo Oriental (entre 1.650 e 1.150 a. C.). Essas duas civilizações, a Minoica e a      Micênica, são responsáveis pelos dois aspectos marcantes da civilização ateniense: espírito guerreiro (herdado dos Micênicos) e profunda tradição humanística (herdada dos Minoicos).
3 – TALES DE MILETO (626 a. C. – 556 a. C.)

De ascendência fenícia, Tales nasceu em Mileto, na Jônia (antiga Ásia menor). De acordo com os historiadores foi o primeiro físico grego que estudou as coisas da natureza como um todo. A sua obra, como a da maior parte dos Pré-socráticos somente se conhece por fragmentos que chegaram até nós, conservados por escritores antigos como Aristóteles e Simplício. Aristóteles frisa que Tales se preocupou por explicitar uma teoria acerca dos fundamentos da natureza, destacando que nela assinalou um princípio permanente ou substancial, sendo que ele identificava tal princípio como água. Ora, o sentido deste termo era entendido em duas dimensões: como princípio substancial radical do qual tudo se compõe e, de outro lado, como elemento que aparece em forma líquida e que constitui boa parte da natureza.  Podemos identificar em Tales um tríade conceitual: Água primordial (princípio metafísico de tudo); Água (elemento líquido); Terra (elemento sólido que flutua sobre a água).

A respeito frisa Aristóteles na sua Metafísica: “A maior parte dos primeiros filósofos considerava como os únicos princípios de todas as coisas os que são da natureza da matéria. Aquilo de que todos os seres são constituídos e de que primeiro são gerados e em que por fim se dissolvem, enquanto a substância subsiste mudando-se apenas as afecções, tal é, para eles, o elemento (stokeion), tal é o princípio dos seres, e por isso julgam que nada se gera nem se destrói, como se tal natureza subsistisse sempre. (...) Pois deve haver uma natureza qualquer, ou mais do que uma, donde as outras coisas se engendram, mas continuando ela a mesma. Quanto ao número e à natureza destes princípios, nem todos dizem o mesmo. Tales, o fundador de tal filosofia, diz ser a água (o princípio). É por este motivo também que ele declarou que a terra está sobre água, levado sem dúvida a esta concepção por ver que o alimento de todas as coisas é úmido, e que o próprio quente dele procede e dele vive (...). Por tal observar adotou esta concepção, e pelo fato de as sementes de todas as coisas terem a natureza úmida; e a água é o princípio da natureza para as coisas úmidas. (...)”.[1]

Tales formulou, portanto, um princípio metafísico: tudo provém de um princípio único: a água. Mas, de outro lado, caracterizou os fenômenos observados utilizando também o conceito de água, para explica-los em termos científicos. Tales considerava que a terra flutuava no oceano como se fosse um barco. A sua hipótese é uma antecipação da moderna teoria da deriva dos continentes e das placas tectónicas. Havia tremores de terra quando a “barca” era agitada pelas águas do oceano e se deslocava. Simplício lembra a respeito o seguinte texto de Tales: “(...) Donde é cada coisa, disto se alimenta naturalmente: água é o princípio da natureza úmida e é continente de todas as coisas. Por isso (...) a água é o princípio de tudo (...) e a terra está deitada sobre ela (...)”.[2]

Tales, como os outros Pre-socráticos, manteve, também, uma ponte com o pensamento mítico. Aristóteles lembrava, a respeito, que alguns fragmentos de Tales de Mileto faziam alusão a uma antiga mitologia, segundo a qual tudo quanto existe provém de Estige (as Águas Primordiais), das quais surgiram Oceano (Água que cerca o mundo, pai de todos os rios) e Tetis (uma das Nereidas, divindades marítimas).

Os filósofos modernos consideram que Tales é o pai do pensamento filosófico, em decorrência do fato de ter postulado um princípio único de onde provém toda a realidade. A propósito, Hegel, nas suas Lições de história da filosofia (obra escrita em Heidelberg em 1816) frisava: “A proposição de Tales de que a água é o absoluto ou, como diziam os antigos, o princípio, é filosófica; com ela a Filosofia começa, porque através dela chega à consciência de que o um é a essência, o verdadeiro, o único que é em si para si”.[3]

Nietzsche, na sua obra Os filósofos trágicos (1873), escreve: “(...) Tales não superou o estágio inferior das noções físicas da época, mas, no máximo, saltou por sobre ele. As parcas e desordenadas observações da natureza empírica que Tales havia feito sobre a presença e as transformações da água ou, mais exatamente, do úmido, seriam o que menos permitiria ou mesmo aconselharia tão monstruosa generalização; o que o impeliu a esta foi um postulado metafísico, uma crença que tem sua origem em uma intuição mística e que encontramos em todos os filósofos, ao lado dos esforços sempre renovados para exprimi-la melhor – a proposição: Tudo é um (...). Assim contemplou Tales a unidade de tudo o que é: e quando quis comunicar-se, falou da água!”.[4]

4 - PITÁGORAS DE SAMOS (580 a. C.- 497 a. C.)

Nasceu na Ilha de Samos, distante de Mileto 50 quilômetros. Participou de um renascimento religioso que ocorreu na Grécia ao longo do século VI a. C. Era filho do gravador miniaturista Mnesarco, de origem aristocrática. Na sua juventude, entrou em contato com a corte de Polícrates de Samos, célebre tirano que incentivou as artes e as técnicas.

O ambiente hedonista e requintado de Samos não agradou a Pitágoras, que emigrou para Crotona, no golfo de Tarento (sul da Itália). Pitágoras organizou uma ordem mística, de homens e mulheres, governada por uma elite dedicada à busca da sabedoria. Nessa empreitada, o filósofo recebeu influências místicas do oriente (culto de Amon Ra, no Egito; mitologia babilônica; zoroastrismo persa e budismo), bem como da mitologia celta.

Encontramos três dimensões nos ensinamentos pitagóricos: em primeiro lugar, conceitos ético-religiosos; em segundo lugar, uma doutrina metafísica (teoria do ser); em terceiro lugar, reflexões sócio políticas. Nesta exposição centraremos a atenção na doutrina metafísica de Pitágoras. Nela, encontramos uma tríade que se explicita da seguinte forma: Unidade primordial (que no Universo consiste num Fogo Central, ao redor do qual giram os planetas)que se torna presente no Péras (=Determinado, que se traduz na série de números aritméticos ou monádicos) e no Ápeiron (= Indeterminado, que se traduz na série de números geométricos).

Os aspectos fundamentais da doutrina filosófica pitagórica são os seguintes:

A – dualismo entre corpo (soma) e alma (psyché). O corpo, elemento inferior e perecível, deve ser dominado pela alma. Ela está condenada a se reencarnar em outro ser vivo (homem, animal, ou planta), até que a completa catarse ou purificação for atingida. A saga de reencarnações pode ser quebrada por quem desenvolver a sabedoria (filosofia) e a ciência. A alma individual é uma partícula decaída que se desgarrou de um reservatório psíquico único.

B – A redenção da alma se dá pelo conhecimento. A fim de restaurar a unidade perdida e ser resgatada do pecado original causado pelo orgulho e a violência (hybris), a alma deve dedicar-se de preferência à contemplação (theoria) da harmonia que rege o mundo e é, pela sua beleza, um selo da obra divina. Nós, seres humanos, tornamo-nos semelhantes àquilo que ocupa o centro da nossa atenção. O equilíbrio interior obtém-se pela absorção mimética do Cosmos ou ordem natural, exterior a nós.

C – A harmonia do Universo pode ser apreendida e simbolizada com a ajuda dos números (arithmós). A música é expressão dessa harmonia. Como todas as coisas estão integradas numa totalidade harmônica, Pitágoras conclui que “as coisas são números”.

D – Os pitagóricos deram ensejo a grandes progressos na geometria e na aplicação da matemática à classificação dos seres materiais e dos seres vivos em pares e ímpares. Pitágoras foi, igualmente, o responsável pela descoberta do valor da hipotenusa num triângulo retângulo, dadas as medidas dos respectivos catetos.

5 - HERÁCLITO DE ÉFESO (540 a. C.-470 a. C)

Heráclito era originário de Éfeso, cidade da Jônia. A sua família tinha raízes aristocratas, pois descendia do fundador da cidade. O pensador era dono de um caráter altivo, bem como de traços misantrópicos. Essas características misturavam-se, nele, com um temperamento melancólico. Menosprezava a plebe. Fazia questão de não intervir em política. E tinha uma posição de crítica azeda contra os antigos poetas, bem como em face dos filósofos da sua época. Era crítico do fanatismo religioso. Escreveu um livro Sobre a Natureza, em dialeto jônico e em prosa. O seu auge como pensador deu-se entre os anos 504-500 a. C. 

Heráclito foi, tradicionalmente, apresentado como o “filósofo do devir”. Mas não seria exato dizer que esse conceito é o único que prevalece no seu pensamento. Encontramos, nele, certamente, a imagem do rio, como no seguinte trecho: “São águas sempre novas as que correm no mesmo rio e outros os que flutuam sobre elas”. Mas, se encontramos aqui a idéia de devir, de movimento, encontramos também a idéia de permanência. É no seio do mesmo rio por onde correm as águas sempre novas. Essa idéia de permanência aparece, também, neste texto que se refere ao sol: “O sol é novo cada dia, mas ele não ultrapassa os limites que lhe são próprios. Se não fosse assim, as Erínias, guardiãs da Justiça, o saberiam encontrar”. Achamos idéia semelhante neste outro texto: “O fogo se converte em mar e uma metade do mar vira terra, enquanto a outra se converte em nuvem ardente. No entanto, o mar não cessa de provir do mesmo Logos, a partir do qual ele se originou, antes mesmo de que nascesse a terra” [5]
.
Existe, pois, no pensamento de Heráclito, permanência sob o movimento das coisas. Essa relação entre permanência e movimento é ilustrada por Heráclito com a imagem do combate. Nada pode chegar a ser, senão mediante uma luta entre contrários. A respeito frisa Heráclito: “Deus é o dia e a noite, o inverno e o verão, a guerra e a paz, a abundância e a carência; ele se converte em outro como o fogo misturado aos aromas, ele é chamado como melhor agradar a cada um”. O combate (pólemos) tudo permeia. É o que o filósofo afirma no seguinte texto: “O combate é pai de tudo, rei de tudo. É ele que faz com que uns pareçam deuses, outros homens, outros escravos, outros livres”. O combate, para Heráclito, é a unidade dos contrários. O pensador exprime essa idéia acudindo às imagens do arco e da flecha, e das cordas da lira: é graças à sua tensão que é produzido o som. O combate é também harmonia, mas não estática, mas dinâmica, entendida como tensão entre o movimento e o repouso. (Anotemos, de passagem, que a imagem da tensão das cordas da lira serviu de inspiração, na Cosmologia contemporânea, à Teoria das Cordas).

 Heráclito considera que é necessária a crítica aos sentidos, por parte da razão, que é participação do Logos. Isso significa que eles podem errar ao estarem vinculados aos aspectos contraditórios do real, sem perceberem a unidade que há na discórdia. O fruto da discórdia e da composição entre contrários é a unidade. Heráclito dá um nome paradoxal à mesma: combate integrador (pólemos xynon). Este processo integrador (xynon) não é a harmonia platônica, nem a idéia que paira acima da diversidade. Pólemos xynon é aquilo que congrega, de forma semelhante a como a lei reúne os cidadãos da polis. E essa lei unificadora se alimenta do Único que é o Logos, ou seja, ela é eclosão, unidade conseguida através de oposições entre as diferenças. Zeus é o combate, o pai, o rei; ele, por outra parte, é também o fogo, aquele que vive sem cessar, aquele que se ilumina em todas as suas dimensões, aquele que se estende segundo as medidas, ele é o nexo e o lugar de encontro dos contrários.

Estas idéias subjazem à frase paradoxal de Heráclito: “A natureza gosta de se esconder”, que tantas repercussões terá ao longo da História da Filosofia Ocidental, no meio helenístico (entre epicuristas e estoicos) e, posteriormente, no pensamento renascentista e nas filosofias empiristas, notadamente no seio da meditação anglo-saxã. A natureza é eclosão sem-fim à qual ninguém pode se furtar. Ela é o desvelamento mesmo. A natureza faz vir as coisas à tona, ela as deixa se manifestar mas, ao mesmo tempo e de forma paradoxal, ela nos rouba a unidade do lar da presença no qual se dá essa manifestação. Destarte, a eclosão das coisas, a sua vinda ao espaço da manifestação é, ao mesmo tempo, dissimulação da presença radical que as sustenta. No arrazoado de Heráclito podemos encontrar uma tríade radical: O Fogo, (Logos universal de onde tudo provém), o Mar (que produz evaporações brilhantes) e a Terra (que produz evaporações tenebrosas).

6 - PARMÊNIDES DE ELÉIA (530 a. C. – 460 a. C.)

Parmênides nasceu em Eléia (hoje Vélia, província de Salerno, no sul da Itália). Estudou com o pitagórico Amínias. Provavelmente foi também discípulo de Xenófanes. Consta que criticou os pensadores Jônios, junto com Zenão, em Atenas. Escreveu o famoso poema intitulado Sobre a natureza que consta de um preâmbulo e duas partes, sendo que a primeira delas se refere à verdade e a segunda à opinião. Parmênides combate, ao mesmo tempo, o dualismo pitagórico e o conceito de movimento de Heráclito.

No seu célebre poema, Parmênides distingue a via da não-via [6]. A primeira constitui o caminho verdadeiro; a segunda, o que está cheio de falsidades. A não-via é o caminho do não-ser, a via verdadeira é o caminho do ser. Os signos do ser são os seguintes: ele não é gerado, não é perecível, não é alterável, é imóvel, sem passado, sem futuro, sem fim. Do ponto de vista positivo, ele é de complexão íntegra, continuamente presente, inteiro e, ao mesmo tempo, único. Esses signos são o ser mesmo, definem a participação nele. Encontramos na reflexão de Parmênides uma tríade básica: o Ser (princípio de onde tudo provém), a Via (caminho da verdade) e a Não-Via (caminho da falsidade).

Se ao lado da via do ser encontramos a da não-ser, que está cheia de falsidades e na qual não podemos acreditar, a via da aparência, como devemos compreendê-la? Apresentam-se, aqui, duas interpretações: para uns, é uma via de falsidade. Parmênides, ao se referir a esta via, quer talvez refutar alguns dos seus predecessores, possivelmente Heráclito. Para outros, Parmênides desenvolve, aqui, uma hipótese sem valor filosófico, formulada para aqueles que não são capazes de coisas melhores.

Jean Beaufret, segundo Heidegger, propõe outra interpretação: esta terceira via é a das dokounta, das coisas que aparecem, que se mostram no plano fenomenal. É o domínio da inconstância. No momento em que cremos apreender as coisas, elas já se converteram em outras. Há, nelas, uma radical dualidade de formas. Mas essa via das dokounta não é ilusória, não seria necessário interpretá-la a partir de uma concepção platônica. Se o ser é colocado na primeira via, é para indicar que ele se diferencia radicalmente de todo ente. A via das coisas que aparecem é a dos entes. A dóxa é o domínio da denominação. Encontramos, aqui, a força da Palavra que diferencia e que, por isso mesmo, individualiza as coisas. O ente é passagem, mas o ser é a dimensão pela qual se mede a amplitude possível de sua presença. O ser é foco de iluminação, mas ele não é perceptível enquanto tal. Ele se revela somente através da diversidade dos entes.

O dimorfismo do ente significa que toda presença está contaminada com a ausência; é por isso que não podemos confiar naquilo que aparece. Mas isso não implica num ceticismo absoluto, pois nenhuma ausência é irreparável. O que caracteriza as dokounta (= as coisas que aparecem) é menos a sua pluralidade do que o dimorfismo que as habita (ou seja, a dualidade, nelas, da presença e da ausência).

O erro provém do fato de isolarmos um aspecto. A unidade, efetivamente, não pode ser procurada no mundo dos entes. É o ser que é a unidade. O ente é só passagem. Isso nos leva a compreender o sentido da implicação essencial do dia e da noite. Vemos, aqui, como as categorias do mito se prolongam nas categorias especulativas do pensamento ontológico.

Bibliografia
ARISTÓTELES, Metafísica, livro I, cap. 3, parágrafo 983. In: Os Pré-Socráticos. (Tradução de J. Cavalcanti de Souza e outros). 4ª edição. São Paulo: Nova Cultural, 1989.

HEGEL, Lições de história da filosofia. In: Os Pré-Socráticos. (Tradução de J. Cavalcanti de Souza e outros). 4ª edição. São Paulo: Nova Cultural, 1989.

LADRIÉRE, Jean. Elements de Critique des Sciences et de Cosmologie – Année académique 1966-1967. Louvain: Université Catholique, 1967 (mimeo.).

NIETZSCHE, Os filósofos trágicos. In: Os Pré-Socráticos. (Tradução de J. Cavalcanti de Souza e outros). 4ª edição. São Paulo: Nova Cultural, 1989.

SIMPLÍCIO. Física, 23, 21. In: Os Pré-Socráticos.  (Tradução de J. Cavalcanti de Souza e outros). 4ª edição. São Paulo: Nova Cultural, 1989.

Questões para discutir. (Escolha a resposta válida):

1 – As raízes culturais remotas de Atenas foram:
·         A civilização persa, que penetrou devido às conquistas de Ciro e Dario, e a civilização do Antigo Egito, presente nas Pirâmides.
·         A civilização minoica (de caráter humanístico e que floresceu em Creta) e a civilização micênica (de caráter militar e que floresceu em Micenas).
·         A civilização celta (guerreira) e a civilização romana (centrada no Direito).
2 – Os filósofos modernos consideram que Tales de Mileto é o pai do pensamento filosófico, porque:
·         Postulou um princípio único de onde provém toda a realidade.
·         Sustentou que a Terra flutua sobre a água, antecipando a teoria da deriva dos continentes.
·         Era de ascendência fenícia, tendo viajado muito pelas cidades do Mediterrâneo Oriental.
3 – Pitágoras de Samos formulou a seguinte tipologia para traduzir, em conceitos, a trilogia do mito cosmogônico grego:
·         Ser (princípio de onde tudo provém), Via (caminho da verdade) e Não-via (caminho da falsidade).
·         Fogo (Logos universal de onde tudo provém), Mar (que produz evaporações brilhantes) e Terra (que produz evaporações tenebrosas).
·         Unidade primordial (manifestada no Fogo Central do Universo), que se torna presente no Péras (determinado) e no Ápeiron (indeterminado).










[1] ARISTÓTELES, Metafísica, livro I, cap. 3, parágrafo 983. In: Os Pré-Socráticos. (Tradução de J. Cavalcanti de Souza e outros). 4ª edição. São Paulo: Nova Cultural, 1989, p. 7.
[2] SIMPLÍCIO. Física, 23, 21. In: Os Pré-Socráticos. Ob. cit., p. 7.
[3] HEGEL, Lições de história da filosofia. In: Os Pré-Socráticos, ob. cit., p. 7.
[4] NIETZSCHE, Os filósofos trágicos. In: Os Pré-Socráticos, ob. cit., p. 10-12.
[5] Para os textos citados aqui, bem como para a linha de raciocínio que seguimos, temos nos baseado na obra de Jean LADRIÉRE, Elements de Critique des Sciences et de Cosmologie – Année académique 1966-1967. Louvain: Université Catholique, 1967 (mimeo.).
[6] Temos nos baseado, para estas considerações, em LADRIÈRE, Jean. Elements de Critique des Sciences et de Cosmologie – Année académique 1966-1967. Louvain: Université Catholique, 1967 (mimeo.).