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| Marquês de Pombal (1699-1782). Tela dos pintores Van Loo e Vernet. [WIKIPÉDIA]. |
Estas breves palavras introdutórias têm como
finalidade mostrar a importância de compreender a Filosofia na sua distinção em
face do pensamento científico. Pois se bem Silvestre Pinheiro Ferreira fez a
crítica ao Empirismo Mitigado de Pombal, o espírito desta abordagem ficou
presente até os dias de hoje na nossa cultura, ao abrigo da tendência
Cientificista, que passou a ser vestida por muita gente, incluindo, nestas
últimas décadas, os marxistas de todas as vertentes. O Positivismo de Comte,
diga-se de passagem, vingou tão profundamente em terras brasileiras, em
decorrência do fato de que, no nosso DNA cultural, abrigou-se desde cedo o
vírus cientificista, ao ensejo do Pombalismo. É imperativo, por isso,
distinguir Filosofia de Ciência. Nos seguintes pontos podemos estabelecer essa
distinção [4]:
1 – Do ponto de vista do Método, Ciência e Filosofia
procedem de formas diferentes. Ao passo que o método científico assinala um
caminho que, partindo do menos seguro (a hipótese), encaminha-se para
afirmações mais firmes, porquanto testadas na observação e na experimentação,
(esse seria o momento da formulação das leis científicas), o método filosófico
percorre um caminho contrário: de uma vivência profunda que revela o sentido
insubstituível da existência, partem os filósofos para uma explicitação
conceitual dessa vivência. Ou seja: o ponto de partida é mais claro do que o
ponto de chegada, pois quando tentamos explicitar a vivência de
“situações-limite”, as palavras ficam curtas. “Não tenho palavras com que
expressar o que senti”, essa seria a confissão de quem pretende explicitar, na
linguagem, a vivência desse tipo de situações. Filósofos e poetas irmanam-se
num ponto: os seus escritos traem a inspiração original, porquanto nem um nem
outro ficam satisfeitos com a explicitação da vivência original na linguagem
(poética, no caso dos segundos, conceitual, no dos filósofos).
2 – A linguagem científica parte para a matematização,
ao passo que a filosófica dela se afasta. Todas as ciências, mesmo as humanas,
aspiram a traduzir de forma exata os seus achados; isso explica o farto uso das
matemáticas na linguagem científica, seja da matemática pura, no caso das
ciências exatas, seja da estatística, no caso das demais ciências. A Filosofia,
ao contrário, afasta-se da matemática, em decorrência de que os seus conceitos
não exprimem quantidades que possam ser traduzidas de forma exata. Seria inadequado
falar, por exemplo: “essa pessoa é 60 por cento corrupta”. Como seria
despropositado o fato de o namorado falar para a namorada: “te amo num 80 por
cento”. Posto que a Filosofia parte de vivências profundas, e pelo fato de
estas não serem matematizáveis, não procede, portanto, a linguagem filosófica
como a científica e se afasta da expressão matemática dos seus achados. É claro
que, ao longo da História da Filosofia, apareceram autores que tentaram
estabelecer uma ponte (ou uma simbiose, no caso dos neopositivistas do Círculo
de Viena) entre matemáticas e pensamento filosófico. Pitágoras pretendia que a
perfeição das esferas celestes fosse traduzida pela matemática. Wittgenstein
tentou estabelecer as bases de uma meta-matemática que daria alicerces ao saber
científico e anularia qualquer discurso sobre hipóteses não solúveis, colocando
para baixo do tapete da história a metafísica. No caso pitagórico, poderíamos
argumentar que os números têm uma significação simbólica (a perfeição seria
traduzida em regularidades matemáticas), sem que isso significasse que qualquer
conceito filosófico tivesse de transitar pelos caminhos da matemática. No caso
de Wittgenstein, ele próprio encarregou-se, na última fase da sua obra, de
deitar por terra a pretensão de que só a matemática basta no terreno do
conhecimento, ao colocar este em face do misticismo, um tipo de conhecimento
não matematizável.
3 – Os conceitos, em Ciência, têm uma significação
unívoca (do mesmo sentido), no seio de determinada disciplina (o químico sabe
exatamente o que significa H2O ou H2SO4). Na Filosofia, os conceitos
têm uma significação análoga, ou
seja, são semelhantes na diversidade. O termo dialética, por
exemplo, possui uma significação análoga, não unívoca, em Sócrates,
Aristóteles, Hegel e Marx. Há uma semelhança na diferença. Para Sócrates, dialética é a arte do diálogo, ao passo
que para Aristóteles é a característica marcante dos raciocínios referidos aos
homens, para Hegel a forma contrária em que se manifesta o Espírito Absoluto
nas suas criações culturais e em Marx é a forma de oposição em que se
relacionam as forças produtivas.
4 – Toda ciência, mesmo que seja muito abstrata,
possui uma parte aplicada que ajuda a transformar o mundo, ao ensejo da
tecnologia (que resolve problemas). Uma ciência que não tenha nenhuma utilidade
é simplesmente abandonada, como foi o caso da astrologia e da alquimia, formas
“científicas” de conhecimento muito valorizadas na Antigüidade, mas que foram
perdendo a sua credibilidade como ciências, na modernidade, ao não produzirem
os efeitos almejados: a pedra filosofal, no caso da alquimia; a solução para o
enigma da vida humana, no caso da astrologia. Podemos afirmar, em conseqüência,
que a ciência, do ângulo da sua aplicabilidade, tem valor pela sua utilidade. Já
a Filosofia não aspira a resolver problemas, mas encara o grande problema não
solucionado pela ciência: a dimensão de sentido da existência. Ela tem um valor
de per se, como algo que faz bem à
nossa existência (de forma semelhante a como valorizamos uma obra de arte, pela
vivência da emoção estética que nos enleva). A Filosofia, concluímos, possui
utilidade pelo seu valor.
5 – É característico da Ciência a sua especialização,
na medida em que se vão refinando os instrumentos de análise. Justamente essa
tendência deixa ver, na contemporaneidade, a importância de uma abordagem
interdisciplinar dos problemas, justamente para tentar reconstituir a
totalidade dos objetos estudados. A Ciência se especializa do ponto de vista do
seu objeto formal (o aspecto específico sob o qual ela estuda o seu objeto
material). Já a Filosofia não parte para encarar o homem de forma parcial (do
ângulo do seu objeto formal), mas o abarca como totalidade existente. A Filosofia constitui a mais radical forma de abordar
uma realidade, do ângulo da sua presença no Ser. Não faria sentido, por
exemplo, indagar pelo “sentido da existência da minha mão esquerda”, quando o existente sou eu na minha integralidade.
A Filosofia, sob este viés, é holística, o
seu método visa a reconstituir totalidades,
as suas indagações pelo sentido da existência abarcam todo o homem e se
estendem a todos os homens.
[1] PAIM, Antônio (organizador). Pombal na Cultura Brasileira. Rio de
Janeiro: Tempo Brasileiro / Associação Cultural Brasil-Portugal, 1982, p. 7-9.
[2] PAIM, Antônio. História das Idéias Filosóficas no Brasil.
3ª edição. São Paulo: Convívio; Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1984, p.
233-249.
[3] VERNEY, Luiz António. Verdadeiro método de estudar – Carta Oitava.
Cit. por Paim, História das Idéias Filosóficas no Brasil, ob.
cit., p. 234.
[4] Para esta caracterização tenho me alicerçado nas seguintes fontes:
JASPERS, Karl, Introdução ao pensamento filosófico, (Tradução de Leônidas
Hegenberg e Octanny Silveira da Mota), 17ª edição, São Paulo: Cultrix, 2006.
MENDONÇA, Eduardo Prado de. O mundo precisa de Filosofia. São
Paulo: Agir, 1963. HARTMANN, Nicolai. Autoexposición sistemática. (Estudo
preliminar de Carlos Mínguez, tradução ao espanhol de Bernavé Navarro), Madrid:
Tecnos, 1989. ORTEGA Y GASSET, José. “A barbárie do especialismo”. In: Humanidades,
Brasília, v. 2, nº 6 (1984), p.
147-149.
Tópicos da exposição do professor:
Questões para discutir. Escolha, em cada item, a resposta certa:
1 – A distinção entre Filosofia e Ciência ficou confusa na tradição luso-brasileira, por causa:
· Do controle exercido pela Igreja Católica sobre o ensino.
· Das Reformas Pombalinas, que valorizaram exageradamente a ciência aplicada.
· Das críticas de Silvestre Pinheiro Ferreira ao Empirismo Mitigado de Pombal.
2 – Do ponto de vista do método, Ciência e Filosofia:
· Se identificam, pois ambas respeitam as regras da Lógica Formal nos seus arrazoados.
· Se contrapõem, pois a Filosofia não segue as regras da Lógica Formal nos seus arrazoados, ao passo que a Ciência segue essas regras.
· Se diferenciam, pois na Ciência o método avança do menos seguro ao mais seguro, ao passo que, na Filosofia, o método vai do mais seguro ao menos seguro.
3 – Ciência e Filosofia se diferenciam, porquanto:
· Ambas adotam a especialização de forma diferente: a Ciência, em relação à natureza; a Filosofia, em relação ao homem.
· A Ciência adota a matematização; a Filosofia é auxiliada pelas estatísticas.
· A Ciência tende à especialização; a Filosofia tende à generalização, abarcando todos os homens e todo o homem, na sua reflexão sobre o sentido da existência.
Tópicos da exposição do professor:
Unidade 1 – Caracterização da Filosofia em face da Ciência
Diferenças fundamentais entre Ciência e Filosofia
1.Do ponto de vista do Método.
2.Do ponto de vista da Matematização.
3.Do ponto de vista da Significação dos Conceitos.
4.Do ponto de vista da Aplicabilidade.
5.Do ponto de vista da Especialização.
ØUma semelhança entre Ciência e Filosofia, do ponto de vista da Lógica.
ØDiferenças entre a Filosofia, a Literatura e a Linguagem Cotidiana.
Ciência e Filosofia do ponto de vista do Método
Método Científico: vai do menos seguro (hipótese) ao mais seguro (tese).
Método Filosófico: vai do mais seguro (intuição existencial) ao menos seguro (explicitação da intuição na linguagem).
Ciência e Filosofia do ponto de vista da Matematização
Todas as Ciências buscam exprimir de forma exata (=matemática) os seus achados.
A Filosofia afasta-se da Matemática, pois seus conceitos, ligados à apreensão vivencial da existência, não são matematizáveis.
Ciência e Filosofia do ponto de vista da Significação dos Conceitos
Dois tipos de Significação: Unívoca e Análoga.
Os conceitos utilizados pela Ciência possuem uma Significação Unívoca.
Os conceitos utilizados pela Filosofia possuem uma Significação Análoga.
Ciência e Filosofia do ponto de vista da Aplicabilidade
Toda Ciência possui uma parte aplicada (tecnologia), paratransformar o mundo resolvendo problemas.
A Filosofia não resolve problemas, mas encara o grande problema não solucionado pela Ciência: o sentido da existência.
Ciência e Filosofia do ponto de vista da Especialização
É característico da Ciência a sua especialização, na medida em que se vão refinando os instrumentos de análise.
Já a Filosofia não parte para encarar o homem de forma especializada, mas como totalidade existente: todos os homens e todo o homem.
Apesar das diferenças, um elemento em comum
Tanto a Ciência quanto a Filosofia obedecem, no seu discurso, às regras da Lógica. Nelas vale o princípio de não contradição.
A Lógica surgiu, primeiro, na seara da Filosofia. Foi Aristóteles quem, no seu Organon, sistematizou pela primeira vez aLógica Formal, identificando as formas dos silogismos válidos, e alertando para as formas falaciosas de arrazoados que não se ajustam às regras da Lógica.
Séculos depois, no contexto do Iluminismo, Leibniz (séc. XVII) propôs a Lógica Matemática, que substituía as palavras por símbolos matemáticos.
No século XX aparece a Lógica dos Circuitos, base da memória artificial dos computadores. Nela, os símbolos matemáticos foram substituídos por impulsos elétricos, dando ensejo àLógica Binária, que é o fundamento da memória artificial na informática.
Diferenças entre a Filosofia, a Literatura e a linguagem cotidiana
•Do ponto de Vista da abrangência
•Do ponto de vista da emoção
•Do ponto de vista da praticidade
Do ponto de vista da abrangência
•A Filosofia abarca uma totalidade racional, que se exprime numsistema de pensamento.
•A Literatura abarca uma totalidade imaginária, que se exprime num universo pessoal.
•A Linguagem Cotidiana não exprime uma totalidade: épragmática.
Do ponto de vista da emoção
•A Filosofia trata as emoções conceitualmente, seguindo asregras da lógica.
•A Literatura trata as emoções esteticamente, de acordo aos procedimentos livres da criação literária.
•A Linguagem Cotidiana trata as emoções pragmaticamente: a interjeição.
Do ponto de vista da praticidade
•A Filosofia não tem uma destinação prática, mas conceitual. Dela diziam os escolásticos: “Contemplari et aliis traderecontemplata” (“Meditar e levar aos outros aquilo que foi meditado”).
•A Literatura não tem uma finalidade prática, mas estética.
•A Linguagem Cotidiana tem uma finalidade prática: expressar necessidades do sujeito.
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